‘Mais de 70% de nossos negócios estão atrelados ao agro’, diz presidente da HPE, que produz Mitsubishi e Suzuki

07/06/2023

 

No Canal Rural Entrevista desta semana, o presidente da HPE Automotores, Mauro Correia, afirma que mais de 70% do volume de vendas da empresa, que é a representante oficial das marcas Mitsubishi Motors e Suzuki Veículos no Brasil, estão atrelados ao agronegócio.

Ainda assim, o executivo não teme o momento de baixa no mercado de commodities agrícolas. “Há uma certa compensação entre a queda [no preço] da commodity e o volume de grãos, que aumenta a cada safra”, diz. Correia lembra ainda que boa parte das picapes produzidas pela HPE é vendida por meio da modalidade de barter, que consiste no pagamento atrelado à saca de grãos, como a soja.

Confira a seguir a entrevista com Mauro Correira, concedida ao diretor de Conteúdo do Canal Rural, Giovani Ferreira.

Canal Rural: O setor automotivo sempre foi um termômetro da economia no Brasil. Qual a sua expectativa com a economia brasileira nos próximos anos?

Mauro Correia: O agro é um grande impulsionador da economia brasileira, representa quase 30% do nosso PIB e é uma atividade em franca expansão. Se nós olharmos os principais commodities, produção de carne, produção de suco de laranja, entre outros, o Brasil lidera em quase todos. Então, quando se olha o futuro deste segmento, eu acho que é muito promissor. E, para nós, como grandes produtores de picapes, também é um segmento de grande interesse e muito promissor para o futuro.

 

CR: Como você pode traduzir a aposta no segmento do agronegócio e qual é a participação do campo no negócio de vocês?

Correia: A participação de campo no nosso negócio é muito grande. Hoje, o nosso carro-chefe é a picape L200. Nós produzimos três modelos no Brasil. Nós produzimos a Eclipse, nós produzimos as L200, que inclui toda a sua gama, e temos também a Pajero Sport. Tanto a L200 como a Pajero Sport são carros também dedicados a isso. Então, hoje mais de 70% dos nossos volumes de vendas estão atrelados ao agronegócio.

 

CR: Estamos vivendo um ciclo de baixa no preço das commodities agrícolas, principalmente grãos. Como isso pode afetar o negócio das montadoras e quais as estratégias para enfrentar esse momento?

Correia: Realmente a queda de commodities sempre vai impactar o valor do agronegócio como um todo, mas o nosso agro é muito robusto e o nosso volume de produção de grãos cresce a cada ano. Então tem aí até uma certa compensação entre a queda [no preço] da commodity e o volume de grãos, que aumenta. Mas o que nós trabalhamos muito forte é o barter. Nós temos uma parceria muito forte com a Agrex e nós vendemos muitas picapes através da troca por grãos, aproveitando o ponto de crescimento da produção e colheita de grãos. Essa é uma atividade muito importante para o que o consumidor compre agora para pagamento futuro.

Outro formato que nós fazemos é o financiamento de picapes com parcelas no momento da colheita. Você troca a sua picape usada por uma nova e nós agendamos pagamentos semestrais ou anuais em função do período de colheita do consumidor, daquele produtor rural. E trabalhamos sempre também em juros baixos, seguros mais baixos, para compensar às vezes um pouco também a queda do valor das commodities e facilitar a compra do agricultor.

Temos essa parceria com a Agrex em toda a região Centro-Oeste, um pouco no Nordeste e estamos trabalhando também muito forte para levar esse processo para o Sul e Sudeste. E um outro ponto que eu acho que é muito importante: quando nós falamos agropecuária, nós estamos tentando aqui desenvolver algum processo muito similar, porque você também tem os períodos de safra da pecuária. É importante também levar ao pecuarista alguma forma diferenciada de compra de caminhonete ou de troca, num conceito parecido com o barter.

 

CR: Como é essa parceria com a Agrex, que é a divisão agrícola do Grupo Mitusbishi. Como é essa dobradinha entre o setor automotivo e o setor agrícola?

Correia: A Agrex faz parte da holding, da Mitsubishi Corporation, especificamente na parte de agronegócio. O que nós temos feito com eles, a princípio, é esta parceria de utilização de barter quando há o interesse do consumidor. Mas agora também estamos concluindo uma nova parceria para serem um representante da Mitsubishi no campo. Eles frequentam várias fazendas no seu dia a dia, e vão passar a ser também um representante volante da empresa no campo.

 

CR: Em dez anos, o Brasil praticamente dobrou a sua produção de grãos. O setor automotivo cresce na mesma linha, no mesmo percentual, o patamar que cresce o agronegócio?

Correia: Não, não cresce. Infelizmente, não. Mas nós vamos segregar muito bem o que é o setor automotivo para o agronegócio e o que é o setor automotivo para o restante da mobilidade. A picape em si, esse utilitário é hoje muito dedicado ao agronegócio, apesar de que você também tem as picapes urbanas. Elas são muito utilizadas no transporte urbano, cargas urbanas, etc. Mas quando você olha o crescimento do agro, você vê os grandes lançamentos de picapes nesse segmento. A picape é um veículo muito adequado ao agronegócio. E aquilo que você reduziu no trânsito urbano ou na utilização urbana, você cresceu com ela no agronegócio. O agronegócio é muito importante para o setor automotivo, para a indústria automobilística, nesse segmento de picapes e utilitários.

 

CR: A gente pode dizer que o desempenho das caminhonetes depende muito da produção, do volume, do preço da soja e o dos veículos urbanos mais atrelado à taxa Selic?

Correia: Com certeza. Eu acho que tem duas coisas que para nós são muito importantes. Você tem o lado urbano atrelado à taxa Selic. No caso das picapes, você falou bem, atrelada ao valor dos grãos. Mas ao mesmo tempo, não podemos esquecer que tudo isso está muito impactado pela taxa de juros. A taxa Selic também impacta no agro, porque quando você vai fazer um barter, ou alguma outra coisa, você tem essa taxa embutida. Então, com certeza a taxa de juros também é um motivador para o crescimento do volume de picapes no agro.

 

CR: Durante a pandemia, as caminhonetes ficaram escassas. Falta de peças, espera de até um ano ou mais para receber o veículo. Essa situação está normalizada? Retomamos o ritmo de vendas pré-pandemia ou ainda tem mercado represado?

Correia: O grande impacto que nós tivemos na produção de veículos como um todo, incluindo as picapes, foi devido aos semicondutores. Durante a pandemia, nós tivemos a restrição de produção de semicondutores e começamos a concorrer com todos os componentes, com todos os produtos eletrônicos, que começaram a ter um consumo muito alto. Então, só para fazer um comparativo, um carro de entrada hoje ele tem mais ou menos de 1.500 a 2.000 semicondutores dentro dele. Você pega um carro intermediário, ele já chega a 7 mil. Um carro puramente elétrico pode passar de 10 mil semicondutores. Hoje a picape tem uma tecnologia embarcada muito grande. Uma picape como a nossa tem piloto automático adaptativo, ela tem sensor de faixa, ela tem câmera, a câmera de ré, ela tem sensores dianteiros, sensor de estacionamento. Você tem vários sistemas, câmbio eletrônico, transmissão eletrônica, todos esses sistemas, eles levam um semicondutor. Então isso foi o grande impacto. Voltou-se a produzir semicondutores no nível que nós tínhamos antes, praticamente. Temos falta de veículos hoje? Não. O que você teve após pandemia? Você teve uma demanda reprimida muito grande, um consumo muito alto que se estabilizou com o aumento da taxa de juros. O mercado está andando um pouco de lado, então hoje não falta produto no mercado, não.

 

CR: Você falou em tecnologia embarcada dos veículos de hoje, principalmente na caminhonete. Ela oferece mais conforto para a cidade, onde estes acessórios são mais úteis. Queria que explicasse um pouquinho para gente.

Correia: Você oferece conforto aos dois. Vamos pegar um pouquinho a agricultura. O Brasil hoje é um dos grandes líderes de tecnologia embarcada em equipamentos do agronegócio. Você já tem aqui tratores autônomos,, plantio controlado via satélite, você faz análise de solos por regiões para fazer plantio. A tecnologia embarcada hoje no agronegócio é muito grande. O Brasil é ?tech?. Em sistemas como o nosso, por exemplo, a nossa multimídia, você roteia no seu celular e ela [picape] está conectada à internet e tem aplicativos específicos. Então você pode também trabalhar com aplicativos do agronegócio. E você utiliza toda essa tecnologia embarcada para poder primeiro ter um conforto em longas distâncias, que é o caso do negócio do agro. O cara sai de uma fazenda para outra a quase 1.000 quilômetros. Segundo, você tem segurança instalada nisso. Terceiro, você tem sistemas eletrônicos dentro do veículo que facilitam muito a performance do sistema de powertrain e da tração quatro por quatro, te levando a locais em que é muito difícil qualquer outra picape ou veículo chegar. Então a tecnologia ajuda muito nesse sentido o usuário do agro.

 

CR: No mercado de máquinas agrícolas, o grande desafio é o pós-venda, a manutenção no Brasil continental. A máquina não pode ficar parada. Uma semana é um prejuízo enorme na época de plantio e de colheita. Com os utilitários utilizados no campo, em especial nessas regiões mais remotas, as fronteiras agrícolas, como trabalhar essa questão do pós-venda e da manutenção?

Correia: Você tem toda razão. A máquina agrícola parou 30 minutos, você tem 30 minutos a menos de colheita. Você tem algumas toneladas de grãos que você não conseguiu tirar da sua fazenda. A picape é um pouco diferente, mas essa experiência você leva ao consumidor e o pós-vendas é a próxima venda. Você tem que trabalhar nisso para o agro. Primeiro você tem que ter um carro que não falhe. Você tem que ter uma picape para a qual você consiga fazer a manutenção programada. Hoje a capilaridade precisa ter cobertura nacional. É difícil você levar isso até todas as novas fronteiras do agro. Mas nós estamos trabalhando muito forte nisso.

Esse é um grande desafio para todas as empresas que fornecem ao agro, e é o que nós estamos fazendo agora. Especificamente, desenhando um projeto que nós denominamos Projeto Agro, que é realmente desenvolver processos que levem a melhor experiência ao produtor rural, ao pecuarista, todos aqueles que vivem do agronegócio. E isso tanto no momento de compra, quanto no momento de pós-venda, quanto durante a utilização do seu veículo. A nossa meta é um veículo altamente adequado ao agro. Nós já temos um produto durável, um produto de baixa manutenção, que permite que você tenha programações regulares e também levar processos diferenciados e capilaridade para esse consumidor.

 

CR: Quando uma montadora resolve vir ao Brasil ou ampliar sua aposta por aqui, essa decisão passa pelo potencial do agro? Até que ponto o agronegócio pesa nessa decisão?

Correia: Acho que pesa muito, porque nós estamos falando aqui de uma área que representa quase 30% do PIB do país. Ele tem uma cadeia de valor muito grande. Então nós não podemos pensar no agro só ali, na fazenda, na produção de grãos, você tem todo o processamento, você tem a industrialização dos produtos do agro e isso leva para a indústria, leva para os centros urbanos geração de emprego. Quando você tem um segmento que é tão pujante e que é tão importante no PIB do país, o crescimento desse segmento é levado em consideração na hora de você fazer suas análises de investimento, porque nós sabemos que ele não vai gerar riqueza, emprego somente no campo. Ele vai gerar em toda a sua cadeia e isso te traz a exportação mais a entrada de dólares.

Você traz empregos para o país em toda a sua área de industrialização e com certeza vai gerar oportunidades para a indústria automotiva em outros segmentos e não só no de picapes. Inclusive para o homem do campo nós temos outros produtos, por exemplo, a Eclipse Cross, que tem [tração] quatro por quatro. Então essa pessoa utiliza picapes, mas também utiliza com a sua família um SUV adequado até para ir para a fazenda. Não vai fazer o mesmo trabalho de entrar em locais específicos com carga, etc., como uma picape, mas é um outro veículo quatro por quatro, que também se desenvolve junto com o crescimento do agro.

 

CR: Eu queria que você falasse um pouquinho também da economia colateral, do impacto positivo que há na economia da região no entorno de uma montadora

Correia: Nós estamos numa região agro. Neste ano nós fazemos 25 anos de produção no Brasil do Mitsubishi. A nossa fábrica está lá há 25 anos, uma empresa nacional com investimento 100% nacional, e nós estamos em Catalão, em Goiás, próximo de Uberlândia, Minas Gerais. É uma região do agronegócio e a empresa gera 2.000 empregos diretos. Se você pensar que cada emprego direto gera de dois a cinco empregos indiretos, nós estamos falando aí de 6 mil a 10 mil empregos indiretos gerados naquela região. Você traz também mais consumo para aquela região, que vai gerar mais impostos, mais arrecadação para a região, que você vai poder investir em educação, saúde, etc.

Ao mesmo tempo, uma empresa do porte da HPE e da Mitsubishi-Suzuki, também faz muitos trabalhos sociais na região. Então, quando você conecta tudo isso, o crescimento para a região é muito grande. Fora todo o desenvolvimento intelectual e educacional que você pode fazer com os treinamentos, que nós provemos aos nossos funcionários para crescerem dentro da companhia etc. Então é um ciclo virtuoso que você agrega a uma região.

 

CR: Sobre o índice de nacionalização dos veículos, isso vem aumentando ao longo dos anos?

Correia: Aumenta. O Brasil tem uma base produtiva de autopeças muito grande. Nós temos a grande maioria das multinacionais e de empresas nacionais de grande porte, multinacionais brasileiras que hoje produzem em vários países do mundo, estão localizadas no Brasil. Então, você tem condições de localização. O único ponto é que a localização também depende do volume de produção. Então a troca de peças é muito importante.

Só para você ter uma ideia, para um veículo do porte de uma picape você vai falar aí em torno, só de ferramentas e estamparia, uns US$ 250 milhões. É um volume muito grande. Às vezes, para amortizar tudo isso, é melhor você investir em um país, colocar esse país onde tem uma produtividade maior, importar esse produto e exportar outro. E assim vai fazendo esse balanço. Mas o Brasil tem condições de nacionalizar. Você precisa sempre fazer o estudo de viabilidade econômica.

 

CR: Entre os principais espaços de comercialização e prospecção do setor são as feiras, as exposições agropecuárias, principalmente quando a gente vai para os utilitários, aí para as picapes e as feiras, que As feiras agropecuárias voltaram muito forte no pós-pandemia, em 2022, mas um tanto tímidas neste ano. Essas feiras são apenas uma vitrine para vocês ou dentro delas acontecem negócios de fato?

Correia: As feiras do agronegócio no Brasil são muito importantes, não só no Brasil como no mundo. Você pega o Agrishow, uma das feiras mais importantes que você tem no mundo do agronegócio. Estive lá e não são só vitrines, pois vendemos produtos em nosso estande. Acabei de voltar agora da Agrotins, que foi uma outra feira espetacular. Durante a feira, nosso distribuidor da marca em Palmas [no Tocantins] vendeu 164 picapes, alugamos dez picapes e ainda tínhamos quase 20 outras unidades em negociação. Então, nós fazemos negócio na feira. Normalmente nas feiras você tem preços especiais, campanhas especiais para o nosso consumidor do agronegócio. São feiras importantíssimas e são feiras de negócios.

o que é mais bonito de você ver em todas essas feiras é a quantidade de empresas nacionais produzindo os equipamentos e acessórios para o agronegócio. É muito bonito ver o quanto o agro incentiva a indústria, é um negócio espetacular. O agro realmente eu acho que é a indústria que nós precisamos olhar e fomentar a cada dia.

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FONTE: https://www.canalrural.com.br/noticias/mais-de-70-de-nossos-negocios-estao-atrelados-ao-agro-diz-presidente-da-hpe-que-produz-mitsubishi-e-suzuki/

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